Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

«Um Toque de Jazz» em Dezembro

 

Nas emissões de sábado de Um Toque de Jazz prosseguirá, em Dezembro, a recensão de dezenas de novos discos internacionais lançados nos últimos meses, numa panorâmica muito diversificada pelas várias estéticas do jazz hoje coabitando um pouco por todo o mundo.

Quanto às emissões de domingo -  como sempre preenchidas com excelentes concertos gravados ao vivo  - as atenções recairão, novamente, sobre o jazz internacional, tudo começando com duas actuações por dois notáveis e aclamados veteranos do jazz: o trompetista italiano Enrico Rava em duo com o pianista Stefano Bollani  (um concerto que chegou a estar programado para Setembro mas que foi adiado, devido à transmissão de uma ópera de maior duração)  e o pianista sueco Bobo Stenson em duo com o contrabaixista Anders Jormin.

Completam este ciclo de grandes concertos alguns nomes em destaque nas novas tendências do jazz, como os saxofonistas John Ellis (EUA) e Eli Degibri (Israel) e ainda o septeto Young Friends formado por jovens músicos alemães e liderados pelo trompetista Julian Wasserfuhr.

Um Toque de Jazz é transmitido aos sábados e domingos, das 23.05 às 24.00, na Antena 2, podendo ser ouvido em FM ou ainda aqui, via webcast. Após a sua transmissão, as emissões estão disponíveis, também via Internet, na página de arquivos multimédia da Antena 2.

 


 

Sábado, 01.12.07Novos discos internacionais (1) – «It’s Almost Residual» (Cuong Vu); «Dance of The Soothsayer’s Tongue» (Dennis González); «Song For Anyone» (Chris Potter); «Ghosts of Bernard Hermann» (Stephan Oliva); «Blues Man From Memphis» (Knoxville Jazz Orchestra); «Out of The Circle» (Alex Sipiagin).

 
Domingo, 02.12.07Concertos internacionais (1) – O duo Enrico Rava – Stefano Bollani (Itália). Data e local desconhecidos. Gravação Eurorádio.
 
Sábado, 08.12.07Novos discos internacionais (2) – «My Foolish Heart – Live at Montreux (Keith Jarrett «Standards» Trio); «Live at The Kennedy Center» (Roseanna Vitro); «M.P.G., feat. Mark Turner» (Mikkel Plug Group); «Freeway» (Joëlle Léandre / Pascal Contet); «The Reckless Search For Beauty» (Wayne Wallace); «The South of Everywhere» (Jonathan Kreisberg); «American Song Book II» (Phil Woods).
 
Domingo, 09.12.07Concertos internacionais (2) – O duo Bobo Stenson – Anders Jormin (Suécia) num concerto realizado no Festival Jazz Báltica (Bad Salzau, Alemanha) em 01.07.06.Gravação Eurorádio.
 
Sábado, 15.12.07Novos discos internacionais (3) – «Something People Can Use» (Matt Pavolka); «Universal Syncopations II» (Miroslav Vitous); «Keep Searchin’» (Steve Turre); «Palermo» (Eddie Gomez); «Sonic Openings Under Pressure» (Patrick Brennan); «4 Corners» (A.Lane / K.Vandermark / M.Broo / P.Nilssen-Love); «Alone» (André Previn); «River – The Joni Letters» (Herbie Hancock).
 
Domingo, 16.12.07Concertos internacionais (3) – O trio do pianista Daniel Szabó (Hungria), com Mátyás Szandai (contrabaixo) e András Mohay (bateria) com o saxofonista convidado John Ellis (EUA) num concerto realizado nas ruínas do Velho Templo de Zsámbék em 07.07.06.Gravação Eurorádio.
 
Sábado, 22.11.07Novos discos internacionais (4) – «Solo in Mondsee» (Paul Bley); «Taking Chances» (Terell Stafford); «Spirits Alike» (The Leaders); «On The Shore» (Mark O’Leary); «Rebus» (J.Morris / K.Vandermark / L.Gray); «So Right» (Maria Pia De Vito); «Never Open With a Ballad (Jim Pearce); «Birdwatcher» (Michel Portal). 
 
Domingo, 23.12.07Concertos internacionais (4) – O septeto «Young Friends» (Alemanha) com Julian Wasserfuhr (trompete), Sven Klammer (trompete), Florian Trübsbach (sax-alto), Michael Wollny (piano), Eva Kruse (contrabaixo) e Eric Schaefer (bateria) num concerto realizado nos Estúdios Rolf Liebermann (Hamburgo) em 26.01.06. Gravação Eurorádio.
 
Sábado, 29.12.07 - Novos discos internacionais (5) – «Light On» (Tom Harrell); «String Quartet» (T.Ulrich / E.Sharp / C.Zíngaro / K.Filiano); «The Levitation Shuffle» (W. Shoup / G.Burns /
R.Radding / G.Campbell); «Symmetry» (Thomas Heflin); «Priority» (Vyacheslav Ganelin); «Music For Big Band» (Jerry González); Rate of Change» (John Roney); «Easy To Love» (Roberta Gambarini).
 
Domingo, 30.12.07 - Concertos internacionais (5) – O quarteto do saxofonista Eli Degibri (Israel) com Omer Klein (piano), Haggai Cohen Milo (contrabaixo) e Ferenc Németh (bateria) num concerto realizado nas ruínas do Velho Templo de Zsámbék em 28.07.06. Gravação Eurorádio.
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 11:20
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Àpartes

O leitor mais atento terá deparado, lá em cima, no cabeçalho, com uma antecipação do que pode encontrar, «muito de vez em quando», neste blog, desde «comentários escritos ao correr da pena sobre concertos, este ou aquele disco, e o mais que apetecer…»
Pois hoje, deu-me para me meter com o Poder – o do Governo e o que nele está representado – e também, já agora, com o Presidente da Associação Comercial Portuense.
Dir-me-ão que isto nada tem a ver com o jazz. Ao que responderei que tem.
É tudo uma questão de falta de swing.
___________________________________ 
 
Assobiar pró lado
 
Desde há semanas para cá, tenho-me divertido bastante com a forma pela qual o inefável MNE, Luís Amado, vem manifestando a sua opinião acerca da vinda a Portugal de Robert Mugabe para participar na Cimeira União Europeia-África, uma história que (a)parece mal contada e com constantes alterações de registo acerca da personalidade do Governo, face ao que verdadeiramente pensa, e da sua independência, face a pressões externas.
 
Primeiro, muito no princípio, perguntado sobre a questão Robert-Direitos-Mugabe-Humanos e sobre as implicações na eventual não-vinda de Gordon Brown a Portugal, Luís Amado como que fazia voz grossa e, com aquele ar seguro e despreocupado que gosta de compor para parecer que manda mesmo (nem que seja durante seis meses) nos negócios estrangeiros da UE, deixava entender que não havia qualquer problema sobre… acima de tudo estavam os interesses de… aquilo que estava há muito em cima da mesa era…
                                
 
                                                                                                                                Entretanto, curiosamente, desde que Brown – esse sim, com a voz grossa dos que, de facto, mandam – já terá definitivamente decidido que não porá os pés na dita Cimeira, é ver Amado a reciclar a sua postura, manifestando algum nervoso, colocando reservas, deixando subentendido que… afinal… pensando bem…
 
Mais ainda: um seu Secretário de Estado, João Gomes Cravinho – neste caso imitando um outro ministro, o da Administração Interna, que nunca acha que é o local ou momento próprios para se pronunciar sobre qualquer problema de monta – aparecia na televisão confrontado com os jornalistas que o aguardavam para que ele comentasse a decisão (horas antes anunciada por Mugabe) de vir, de facto, à Cimeira.
 
Metendo os pés pelas mãos e não percebendo o ridículo de, enquanto membro do Governo, dar a entender (mesmo fingindo) que não sabia de nada (primeiro) e que afinal apenas tinha tido conhecimento dessa alegada decisão através da Lusa (!!!), Cravinho também parecia não perceber que demonstrava, ao mesmo tempo, uma manifesta falta de orientação nas suas declarações aos jornalistas.
 
Pense-se o que se pense acerca do miolo deste imbróglio, aquilo que parece é que estão todos a assobiar pró lado!
 
Cartão vermelho
 
Desde há muito que sou espectador frequente do Trio de Ataque (RTPN), um debate correctamente moderado por Carlos Daniel no qual três «representantes» dos três grandes – entre os quais o meu velho amigo e correligionário (SLB) António Pedro Vasconcelos – se comportam, em geral com decência, na defesa inteligente (e às vezes distanciada) dos seus clubes e na chamada «dignificação do futebol», enquanto desejável e preferencialmente honrada manifestação do «fenómeno desportivo» (julgo que é assim que se diz no meio).
 
Tirando o facto de o «representante» do Sporting já ir na terceira escolha e de o actual Rui Oliveira e Costa (de acordo com o seu estilo)...
 
Ponto 1 – ter intervenções às vezes intermináveis…
Ponto 2 – tornando, assim, o programa um pouco sonolento para o espectador…
Ponto 3 – e parecendo até adormecer os seus dois pares e o próprio moderador…
Ponto 4 – com as infindas explanações sobre o «quatro em losango»…
 
…tem-me apetecido, apesar de tudo, continuar a ver o programa, sobretudo se comparado com a sinistra «peixeirada» da véspera, o Dia Seguinte, da SIC Notícias.
                                     
 
                                                                                                                                    Na última terça-feira, porém, ao mais uma vez Rui Moreira e APV terem destilado a continuada e já patética aversão que nutrem por Scolari (e que teve o seu ponto mais alto nas espantosas análises feitas em directo da Alemanha, aquando do último Mundial), o primeiro teceu ainda algumas judiciosas considerações sobre a conferência de imprensa do «sargentão» após o Portugal-Finlândia, ensaiando uma analogia e mostrando a sua inquietação acerca da preocupante passividade dos portugueses face a crescentes fenómenos de autoritarismo.
 
Até aqui, tudo bem. Acontece, porém, que ao referir-se aos 48 anos de ditadura, o também Presidente da Associação Comercial Portuense sugeriu, de passagem – mas de forma explícita e sibilina (que, para bom entendedor, bastou) – a metafísica dúvida sobre se não teriam sido… afinal… 49 anos!
 
Bom… eu não conheço o jovem e simpático empreendedor de lado nenhum mas, vendo o seu aspecto exterior, admito que Rui Moreira teria, no máximo, os seus 15 anitos, quando os (de facto) 48 anos de ditadura chegaram ao fim. Mas, pelos vistos, terá aprendido depressa a cartilha, já que, fazendo as contas, parece que o seu 25 não é, logo, logo, o de Abril mas sim o de Novembro.
 
Soou-me a um tackle, a uma entrada por trás, a pés juntos.
Acho que vou mostrar-lhe o cartão. Vermelho, claro.     

Actualização: uma pequena precisão de estilo no texto do segundo Àparte
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Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 10:28
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Terça-feira, 27 de Novembro de 2007

Um verdadeiro serviço público

 
Todos os autores de blogs ou sites portugueses que na Net se dedicam à divulgação do jazz seguramente me perdoarão se eu aqui declarar, alto e bom som, que um site relativamente recente se tem vindo a revelar – para utilizar a expressão de um amigo, que ali procura tudo o que quer encontrar – um autêntico serviço público, neste domínio musical.
 
Refiro-me, está bem de ver, a Jazzlogical, o site que há tempos Leonel Santos – crítico, divulgador e amador de jazz à antiga, ou seja, fazendo estas coisas por amor à arte – inventou, no fundo, para dar guarida e maior possibilidade de expansão à sua preciosa Agenda Jazz, anteriormente enviada erm anexo de email à dúzia de carolas que, nesta área, poderiam considerá-la útil.
 
Evoluindo, assim, para um site propriamente dito, no qual podemos agora encontrar notícias, artigos, uma lista de salas e clubes habitualmente albergando o jazz, links nacionais e internacionais (alguns menos conhecidos), recensões críticas de concertos e festivais ou a programação-jazz na rádio e na televisão, o Jazzlogical será sempre, acima de tudo, o local onde todos vamos saber o dia, a hora e o local (exaustivamente ordenados, na já citada agenda) de tudo o que de mais importante se pode ouvir ao vivo neste país, no que ao jazz se refere.
 
Ao amador inveterado e ao crítico mais activo e viajador se aconselha, então, a visita frequente a Jazz Logical e à sua, absolutamente indispensável, Agenda Jazz.
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Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 18:58
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Recursos Jazz Online (1)

 

Entre os vários sites que constituem amplos mananciais de recursos sobre o jazz na Internet – alguns dos quais figuram, ali mais à direita, na lista de links de O Sítio do Jazz – a NPR (National Public Radio), é um dos mais recheados locais para pesquisar fontes de informação (e fruição) sobre (e do) jazz que se podem encontrar online.

 
Trata-se do serviço público de rádio norte-americano, esse bem-vindo «anacronismo» que, em conjunto com a PBS (Public Broadcast System), constituem a rádio e a televisão públicas na pátria do grande capital e da iniciativa privada, hoje mais conhecidos pela alcunha O Mercado.
 
Recentemente, a National Public Radio estreou um novo e utilíssimo serviço sobre música na Internet, a NPR Music (ainda em beta), dedicado aos vários domínios musicais que vão da pop ao jazz, sendo a visita deste último altamente recomendável através de um simples clique neste link. Ali se poderão encontrar, em arquivo, dezenas de emissões dos principais programas de jazz da estação a nível central, desde concertos, entrevistas ou perfis de músicos, realizados pelas várias personalidades que colaboram com a estação. Mais ainda, a lista das centenas de estações de rádio associadas à NPR que a nível nacional se encontram espalhadas pelos vários estados dos EUA pode levar-nos à descoberta da programação-jazz própria de algumas dessas estações a nível regional.
 
A título de exemplo, é na WFIU, uma subsidiária da NPR com sede na Universidade de Indiana, em Bloomington, que se pode descobrir, entre as várias e interessantes emissões em arquivo do programa Night Lights, aquela que (não disfarçando os assomos de um toque reaccionário) recentemente foi transmitida sobre o papel na divulgação do jazz desempenhado por Willis Conover, um realizador e apresentador que, durante anos, foi responsável pela programação da Voice of America Jazz Hour e que morreu em 1996, vítima de cancro.
 
Continuando a ser hoje uma peça importantíssima do poderoso aparelho ideológico dos EUA – e, por maioria de razões, ponta de lança do anticomunismo na época da guerra fria –, a Voz da América via a sua expansão mundial alargada pela utilização da Onda Curta, hoje um meio de transmissão ainda usado internacionalmente mas bastante ultrapassado nos países do 1º. Mundo pelos avanços tecnológicos nesta área, designadamente com os repetidores FM ou sobretudo a transmissão via webcast.
Mas também no Portugal salazarento e culturalmente obscuro dos anos 1950/1960 – em que eram praticamente inexistentes ou escasseavam os livros, as revistas, os discos, os concertos e os programas de rádio e televisão dedicados ao jazz – ouvir (por volta da meia-noite, em Onda Curta) a Voice of America Jazz Hour de Willis Conover era uma das únicas possibilidade que os amadores de jazz desse tempo tinham para descobrir as últimas novidades do jazz, essa música de liberdade. 
                                                          
E um hábito quase diário que, no caso de alguns, quase se equiparava à audição das rádios clandestinas antifascistas, o que não deixa de ser uma curiosa contradição.
 
Foi por isso com emoção que voltei a ouvir o indicativo da VOAJH com a voz de Willis Conover associada a Take de “A” Train, ao escutar em diagonal esta emissão do programa Night Lights.
 
Aqui fica então a referência para quem tiver a curiosidade de revisitar o som de uma época que, para o mal e para o bem, marcou a minha geração.
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Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 12:29
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Sexta-feira, 23 de Novembro de 2007

Entre aquilo que parece e não é… e aquilo que é mas não parece (2)

Fotos: Cortesia Guimarães Jazz e
© Márcia Lessa
                                                                                                                                                
                                                                                                                                               
Nesta abordagem complementar da segunda parte do Guimarães-Jazz 2007 – cuja primeira e segunda recensões podem ser lidas aqui e aqui –, gostaria de glosar um pouco mais a questão das verosimilhanças e das aparências na criação e na fruição do jazz. Começaria, para tal, pela análise do concerto de Ahmad Jamal, um histórico e incontornável pianista em todo o percurso do jazz, cujo interesse e expectativa quase se equiparavam, antes da sua actuação, às do concerto de Jan Garbarek.
 
Julgo que o facto de há muitos, muitos anos, Jamal tocar com os mesmos elementos do seu trio, conduz hoje a resultados contraditórios. Por um lado, sem dúvida que os três músicos se conhecem como as próprias mãos, originando assim momentos musicais de grande unidade e compreensão mútua que parecem tornar insuperável esta «máquina» de fazer música. Por outro lado, esse mesmo conhecimento íntimo arrisca-se a conduzir a uma certa preguiça criativa e à repetição artificial e exaustiva de mnemónicas e processos há muito experimentados e de êxito garantido.
 
Entre estes artifícios, a forma como Jamal termina invariavelmente as peças que apresenta – com um acorde fortemente acentuado no teclado, ampliado pelo pedal de ressonância e síncrono com as acentuações dos seus companheiros de palco, como se de um flique-flaque se tratasse – destina-se, também invariavelmente, a provocar o júbilo e a incontinência das palmas.
 
Que isto aconteça, de vez em quando, no que de melhor nos oferecem concertos de jazz, de câmara ou sinfónicos, é próprio da relação de causa e efeito naturalmente produzida (enquanto fenómeno artístico partilhado) em casos de especial identificação racional e emocional entre o emissor em palco e o receptor na plateia. Que isto faça parte de um arsenal premeditado de efeitos e clichés repetitivos em ordem ao arranque imparável de aplausos, é algo que hoje particularmente choca na (para todos os efeitos) demagógica actuação de um mestre como Ahmad Jamal, tão justamente admirado pela sua notável carreira.
 
E repare-se nas consequências a que tal postura quase sempre conduziu neste concerto: excluindo certas passagens transfiguradoras e invulgares de Like Someone in Love ou a sempre insólita beleza de uma peça de boa memória como Poinciana, raramente Jamal se concedeu a si próprio e aos seus pares espaço e respiração suficientes para desenvolver uma ideia musical que durasse mais de 30 segundos, no máximo um minuto! De forma sistemática, o que tínhamos era uma sucessão virtuosística e rapsódica (com o decorrer do tempo tornada banal) de torrentes de notas na região média e aguda do piano, entrecortadas de supetão pela produção de oitavas fortemente percutidas nos graves, tudo isto arredado de qualquer assomo de lógica ou consistência internas.
 
Finalmente, o constrangimento e a submissão total do repertório apresentado às intervenções ininterruptas de um percussionista omnipresente e pleonástico (ultimamente agregado por Jamal ao seu trio, qual truque que se traz na manga) contribuíram, ainda mais, para que uma actuação que se aguardava imaculada e exemplar redundasse (pelo menos para alguns) numa indisfarçável desilusão.
 
Embora também marcado por uma elevada intensidade emocional e sem dar descanso ao espectador, foi totalmente diferente o concerto que nos ofereceu o guitarrista John Scofield com o seu trio constituído pelos brilhantes Bill Stewart e Steve Swallow, aos quais se somou em palco um trio de instrumentos de sopro, um pouco à semelhança do que acontece no seu último álbum This Meets That (EmArcy / Universal, 2007).
 
Quase sempre fazendo soar a sua guitarra dirty numa atmosfera sónica poderosa e sem contemplações, John Scofield esteve amiúde muito próximo da música country (Shoe Dog), da música folk (House of The Rising Sun) e dos sons rasgados do rock (I Can’t Get No Satisfaction). Mas afastou-se resolutamente – exceptuando a sensível inclusão de uma peça de jeito evocativo, como é Memorette – de quaisquer subtilezas que suscitassem a tentação de analogia ou proximidade com outro fiel praticante destas áreas musicais: o mais heterodoxo Bill Frisell.
 
Mais: aproveitando ao máximo a firmeza do tempo e as fortíssimas explosões rítmicas (plenas de leveza e musicalidade) da requintada bateria de Bill Stewart, a par do impressionante baixo de Steve Swallow, Scofield não descurou os terrenos dos blues e do funk (Heck of a Job e Over Big Top), todos swingando e gozando à brava em Donna, uma paráfrase bebop sobre os acordes de Indiana.
 
Recordado e entendido agora de forma retrospectiva, talvez o mais interessante neste concerto de John Scofield tenha sido a inteligente justaposição de dois mundos conceptuais, instrumentais e tímbricos de carácter muito diverso e que provocavam quer um efeito de distanciação quer uma conjunção de cumplicidade, em mais um «jogo de escondidas» entre o que seria aparente e o que foi real.
 
Enquanto, à esquerda do palco, o trio de guitarra, bateria e baixo manifestava a assumpção plena da electrónica e da rudeza da música popular de raiz rural ou urbana, era atribuído a um trio acústico de sopros (Phil Grenadier, Eddie Salkin e Frank Vacin), colocado à direita do palco, uma função instrumental muito simples e discreta mas bastante sofisticada e polivalente: perto de um jazz de câmara em Memorette, fazendo um pastiche dos arranjos West Coast em Donna, mergulhando (a espaços) na exploração aleatória de Pretty Out  e mesmo evocando o rhythm ‘n’ blues em Satisfaction ou o estilo Motown em Heck of a Job.
Um verdadeiro achado!
 
Por último, remetido ao recolhimento e dimensão quase familiar do Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor – como parece, apesar de tudo, razoável dado o carácter claramente experimental da sua música – o colectivo TOAP (acrónimo de Tone of a Pitch, uma das mais corajosas editoras independentes portuguesas) seria responsável pelo concerto mais singular e arriscado do festival e teve como protagonistas e cúmplices Matt Renzi (sax-tenor), Jacob Sacks (piano), Bernardo Moreira (contrabaixo) e André Sousa Machado (bateria).
 
Propondo-nos meia dúzia de peças extremamente rarefeitas e de recorte abstracto, das quais estiveram afastados muitos dos convencionalismos que, de forma quase imutável, tendemos a grudar para todo o sempre ao jazz – como a estrita fórmula tema-variações-tema, o swing explícito, a expressividade tímbrica, a evocação dos blues ou um certo tipo de articulação instrumental – os quatro tranquilos mas arrojados membros do quarteto (dois norte-americanos e dois portugueses!) procuraram tornar evidente que o jazz, como qualquer outra música, nunca esteve nem nunca estará parado na sua contínua e contraditória evolução.
 
Jamais sugerindo qualquer tema «palpável», em termos convencionais, que pudesse constituir uma referência ou um guia verdadeiramente reconhecíveis – antes privilegiando estruturas harmónicas escorregadias que serviam de base a fragmentos «melódicos» que pairavam e evoluíam, de forma sinuosa, sobre aquelas – um tal princípio conceptual, curiosamente comum aos três autores tocados (Moreira, Sacks e Renzi), rejeita quer a tradição clássica/moderna quer a tradição free, ou seja, duas direcções principais que hoje, com maior ou menor obsessão seguidista, continuam a coabitar na cena mainstream (conservadora ou modernaça) do jazz.
 
Com os pés bem assentes em pleno século XXI, não estamos, assim, perante uma música de improvisação inteiramente livre, já que a componente de composição prévia (mesmo que esparsa ou diluída) continua a estar presente, Mas o grau de desvios incidentais, admitidos no decorrer das peças ou nascidos da interacção e das intervenções altamente concentradas que cada músico propõe nesta permanente partilha de ideias, fazem desta música um jazz novo, que desafia e estimula a nossa própria criatividade auditiva.
 
Seria óptimo que pudéssemos estar despertos para tal.

Guimarães Jazz 2007 (2ª. Parte)
15.11.07 - John Scofield Trio + Sopros
16.11.07 - Ahmad Jamal Quarteto
17.11.07 - Colectivo TOAP
Centro Cultural Vila Flor
Guimarães
Actualização: emendada a última frase.
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 14:36
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Terça-feira, 20 de Novembro de 2007

Entre aquilo que parece e não é… e aquilo que é mas não parece (1)

Fotos: Cortesia Guimarães Jazz e
© Márcia Lessa

 

Considerado o percurso de décadas da história do jazz, é inegável que se foi instalando nos amadores de jazz a ideia – sem dúvida justa e apoiada em testemunhos concretos, comprováveis em palco ou através da audição de discos – de que não há big bands mais «perfeitas» do que as norte-americanas, naquilo que é afinal fruto de uma cultura fortemente enraizada na cena do jazz dos EUA.

 
Mesmo se pensarmos nos melhores exemplos europeus – pesem embora a proximidade (também cultural) das big bands de origem britânica, o generalizável perfeccionismo instrumental das grandes orquestras do Norte e Centro da Europa ou ainda os sedutores desvios à «normalidade» de algumas formações holandesas, francesas e italianas – não há nada que se compare à intuitiva coesão e ao natural impacte que nascem de uma prática duramente criada «na estrada» ou de uma escola nascida nos campus universitários, para já não referir esse repertório infindo que constitui o book inspirador e irrecusável de tantos talentosos arranjadores.
 
Entretanto e curiosamente, foi ao ouvir a big band de um histórico como Charles Tolliver no vibrante concerto de encerramento do Guimarães-Jazz 2007, realizado no passado Sábado 17,que dei por mim a cogitar nessa outra realidade de que ainda me não havia apercebido: a de que é também nos EUA que podemos encontrar… as melhores big bands «imperfeitas» de todo o mundo!
 
Se não vejamos:
  • Charles Tolliver não é, em rigor, um director de orquestra particularmente dotado, ficando a dever-se a uma certa gesticulação dispersa e até inesperada da sua direcção alguns momentos de desalinho no seio da big band, como aconteceu em Chedlike, a segunda peça do concerto;
  • não poderá também dizer-se que, enquanto arranjador (e excluindo, porventura, a sua movimentada e longa versão de ‘Round Midnight), Tolliver demonstre particular propensão para a gestão concertadamente distribuída de laboriosas associações tímbricas ou de subtis diálogos entre os vários naipes instrumentais, antes privilegiando os ataques em massa ou a execução temática e parafrásica em dinâmicas fortes, quase sempre produzidas a 100%, de que Suspicion (a penúltima peça da noite) foi paradigmática;
  • por último, um certo apego (e até estímulo) à permanente intervenção da bateria no corpo da escrita para orquestra ou no apoio aos solos individuais, deita por terra qualquer veleidade de contarmos com momentos (mesmo que muito espaçados) de recolhimento ou tranquilidade na componente rítmica da orquestra, se exceptuarmos a introdução e o final exemplares de Mournin’ Variations, da qual, precisamente, a secção rítmica esteve ausente!
E o certo é que, apesar da constatação (a meu ver objectiva) das possíveis reservas que acabei de enumerar,  a sequência das várias peças que Tolliver trouxe consigo configurou uma actuação de grande intensidade, expressividade emocional e verdade a toda a prova, claramente originada pela indisfarçável genuinidade afro-americana da música ouvida e do competente conjunto dos seus intérpretes.
                                                       
Isto, com duas únicas excepções que desde já se despacham: o omnipresente «ruído de fundo» de um baterista (Gene Jackson), relutante a aceitar e interiorizar qualquer noção de graduação e contraste nas dinâmicas rítmicas e sónicas (e na utilização dos próprios dispositivos percussivos) e a manifesta degradação do jogo instrumental e da pulsação do tempo por parte de Reggie Johnson (contrabaixo), problemas felizmente colmatados (ou pelo menos ladeados) pela melhor performance que nos últimos anos surpreendi em Kirk Lightsey (piano), sem dúvida um dos mais seguros e eficazes elementos com que hoje conta Charles Tolliver e cuja emtusiasmante improvisação em 'Round Midnight foi em tudo modelar.                                                                                                                                                                                                 
Deixando-nos ouvir, depois da introdução aleatória por toda a orquestra, a exposição do tema por um potente naipe de trompetes – chamado a intervir, as mais das vezes, na região sobreaguda do instrumento –, uma peça como On The Nile (original de Tolliver) estabeleceu logo de início o ambiente que marcaria todo o concerto e colocou logo em destaque o sax-tenor de um histórico (Billy Harper) que brilhou de forma empolgante em todas as suas intervenções.
                                   
O naipe de saxofones (alargado em momentos precisos às «madeiras», como clarinetes e flautas) foi, aliás, chamado a produzir-se como um colectivo coeso em momentos de particular importância, por exemplo na execução temática a capella do já referido Mournin’ Variations. Mas forneceu ainda, ao longo da actuação da orquestra, alguns dos seus solistas mais inspirados, como os veteranos Bill Saxton, pleno de energia em Suspicion (o encore da noite), ou Howard Johnson, este intervindo sem acompanhamento em Toughin’, o momento «exótico» do concerto. E ainda dois saxofonistas-altos decisivos: Bruce Williams, na vertigem bopper da secção rápida de ‘Round Nignight, e, sobretudo, o desconhecido e moderníssimo Todd Bashore, também altamente estimulante em Suspicion.
                                                                                       Seria entretanto injusto não referir, ainda, dois dos melhores solistas de todo o concerto, com a vantagem de nos proporem duas linguagens diferentes no trompete: Keyon Harrold, castiço q.b. em Mournin’ Variations, e David Weiss, mais contido mas muito elaborado em Toughin’.
                                                                                                                                    Se a orquestra de Charles Tolliver constituiu um encerramento condigno para esta XVI edição do Guimarães-Jazz, a abertura da segunda parte do festival (na passada quarta-feira 14) tinha já deixado expressa a agradável confirmação dos talentos de um pianista que não tem sido muito feliz em anteriores presenças entre nós: Orrin Evans.
                                    
Enquanto líder do seu próprio quinteto, este concerto foi uma das vertentes da sua presença em Guimarães. E diga-se desde já que o festival recomeçou da melhor maneira, com uma actuação que, no instrumentário e na estética, se inseriu com naturalidade nas correntes de reavaliação contemporânea do legado jazzístico de um período-chave da história do jazz: o hardbop.                                                                                                                                                         
Esta constatação não pode, no entanto, levar à afirmação de que o quinteto de Orrin Evans se limitou, pura e simplesmente, aos ditames do revivalismo puro e duro que marcou parte dos anos de 1980 e nalguns casos ainda perdura. Pelo contrário – e mesmo que o tom poderoso e o fraseado transbordante e imaginativo de Alex Sipiagin (trompete) nos tenha soado aparentemente mais familiar – o concerto deixou-nos uma nítida sensação de frescura composicional, através da modernidade actual de Mat-Matt, Spot It You Got It e, sobretudo, Two Faces of Nasheet, à qual Evans associou a tranquilidade de What’ll I Do?, um belíssimo clássico de Irving Berlin, ou a intensidade bluesy de TC’s Blues.
                         
Em termos individuais, somando-se ao já referido Sipiagin, pudemos ouvir solos exigentes e avançados de Stacey Dillard (saxofones) e do próprio Orrin Evans (piano), sendo imprescindíveis à expressividade e impulsão do grupo a polivalência percussiva e as desmultiplicações rítmicas de Donald Edwards (bateria), «reguladas» pelo tempo sem mácula de Darryl Hall
                                                                                        Outra vertente em que Orrin Evans e seus pares estiveram activos em Guimarães, para além deste concerto e das jam sessions diárias realizadas no café-concerto do Centro Cultural Vila Flor e na Associação Convívio, foi a orientação e direcção dos habituais workshops, uma actividade paralela já indispensável que acompanha todo o período do festival. O resultado público desses workshops foi divulgado num dos dois concertos vespertinos do Guimarães-Jazz: aquele que nos proporcionou a audição da big band da ESMAE-Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo (Porto).                                                                                                                                                                    
Desta vez não apresentando grandes revelações no plano solístico – como já acontecera em anos anteriores com os saxofonistas João Guimarães e Zé Pedro Coelho – a big band da ESMAE revelou uma assinalável capacidade de leitura e de interpretação à altura do repertório tocado, com relevo para Conservation, um original de Bobby Watson, e para Oh Lord! Don’t Let Them Drop That Atomic Bomb on Me, uma incontornável peça-manifesto de Charles Mingus, durante a qual Orrin Evans fez questão de sentar ao piano.
                                                                                                                                      
Mas nos ouvidos ficaria, ainda, a comprovação dos notáveis progressos de dois já conhecidos protagonistas do jazz que se faz a Norte do país: a trompetista Susana Silva e o saxofonista-alto Ivan Silvestre, bem como a revelação de outros alunos da ESMAE cujo nome não pude reter: um saxofonista e um guitarrista (aparentemente espanhóis) e um baterista português particularmente dotado para esta difícil função numa big band, ainda uma raridade entre nós.
                                                                                      Por agora e permitindo-me remeter o leitor para a recensão crítica à primeira parte do Guimarães-Jazz já anteriormente publicada, é preferível ficar por aqui, que esta crónica já vai longa! Quanto aos concertos de Ahmad Jamal, John Scofield e colectivo TOAP (Tone of a Pitch), a respectiva análise ficará, com vantagem, para daqui a alguns dias.                                                                                                                                                                  
Sejam bem-vindos por cá!

Guimarães-Jazz 2007 (2ª. Parte)

14.11.07 - Orrin Evans Quintet

16.11.07 - Big Band da ESMAE

17.11.07 - Charles Tolliver Big Band

Centro Cultural Vila Flor

Guimarães


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 10:57
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Terça-feira, 13 de Novembro de 2007

Três registos diferentes no arranque do Guimarães-Jazz 2007


Fotos: Cortesia Guimarães Jazz e
© Márcia Lessa

 

Passada que está uma boa série de concertos que têm configurado a elevada qualidade da presente temporada portuguesa de jazz ao vivo, venho chegando nos últimos tempos à conclusão de que sou um feliz ouvinte de jazz.

É um facto: tanto me tenho regalado, em termos emocionais, com música familiar (embora não preguiçosa) que me leva a bater o pé ou a estalar os dedos -  naquela boa disposição física que o jazz de linhagem clássico-moderna nos melhores casos proporciona  -, como tenho com gosto embarcado na aventura do desconhecido, vivendo esse conforto mais racional suscitado pela descoberta dos trilhos de uma performance improvisada ou de uma composição mais elaborada.

Imaginem agora o prazer que experimentei ao assistir, na passada sexta-feira, no segundo concerto do Guimarães-Jazz, à actuação do quarteto de Ravi Coltrane, uma boa hora e meia passada quase sem se dar por isso e na qual o melhor daquelas diversas atitudes e posturas conceptuais esteve presente em palco, na meia dúzia de peças originais ou composições de terceiros inteligentemente abordadas e recriadas pelo brilhante saxofonista e seus pares de excelência.

Filho de um dos maiores e derradeiros génios de todo o jazz, Ravi Coltrane teve, neste concerto, a primeira virtude de se afastar, com naturalidade (em termos de influência explícita), da herança musical directa deixada por seu pai. Neste sentido, até mesmo Giant Steps (que encerrou o concerto) surgiu como uma peça altamente transfigurada, desde logo na ausência total da exposição do tema, que só nos foi dado a ouvir já perto do fim, mas também na alteração dos tempos e da cadência rítmica.

Acontece que logo o início do concerto nos tinha revelado, com a peça One Wheeler Will (de Ralph Alessi), o essencial da intensa frescura e novidade desta música que Ravi Coltrane e seus notáveis companheiros nos propuseram: um jazz que se vai construindo como que em camadas de diverso grau de exigência composicional e improvisativa, as quais se justapõem e deixam implícitos (à nossa escolha e responsabilidade!) vários caminhos de entendimento e de partilha.

Depois, 26-2, um clássico de John Coltrane no qual se subentende a auto-citação de um excerto da progressão harmónica de Countdown, foi transformado num impetuoso e agitado perpetuum mobile, capaz de nos deixar esgotados. E, logo em seguida, a atmosfera rarefeita e o intenso modalismo de For Zoe -  uma peça comovente, dedicada por Ravi à memória de Zoe Anglesey, poetisa, crítica de jazz e activista do multiculturalismo  - colocava um ponto e vírgula nesta sequência inicial, que nos ajudara a encontrar firmes coordenadas de fruição para uma música sem compromissos.

Seria, entretanto, Tribes of New York -  um original não muito conhecido de Ornette Coleman, cuja juvenilidade e desarmante simplicidade temática pareciam justificar, apenas, breve e simbólica referência  - a constituir, no exigente e complexo tratamento a que foi sujeito, um verdadeiro ponto de viragem no concerto, pelo maior aprofundamento das melhores qualidades antes insinuadas.

Foi então que Luis Perdomo se confirmou como um esteio essencial e um dos mais estimulantes pianistas do jazz actual, um pouco na linha de um Danilo Perez, também ele um acicate constante à excepcional criatividade de Wayne Shorter que tanto o Centro Cultural Vila Flor como a Culturgest puderam no ano passado testemunhar.

Insuperável na associação das linguagens erudita e popular e nas movimentações melódicas e harmónicas de uma improvisação imparável e exigente (que dividiu em três secções de expressividade diferente), Perdomo deixaria ainda contagiantes sugestões rítmicas a Drew Gress e a E. J. Strickland: o primeiro polivalente no estilo, metronómico no tempo e amplo na sonoridade; e o segundo implacável na permamente desmultiplicação dos tempos e no estilhaçado jogo percussivo, jamais se limitando a um burocrático acompanhamento rítmico.

Quanto a Ravi Coltrane, a recusa do exibicionismo técnico gratuito não escondeu um virtuosismo a toda a prova na exuberante vertigem de Tribes e Giant Steps e permitiu-lhe valorizar uma sonoridade e um timbre altamente adequados aos tempos mais lentos de For Zoe ou dessa admirável evocação de sua mãe Alice numa composição desta - Jagadishwar - extraída do seu último álbum Translinear Light.

Completaram o cartaz desta primeira parte do Guimarães-Jazz 2007 dois históricos do jazz norte-americano e europeu: Pharoah Sanders e Jan Garbarek.

O veterano protagonista dos movimentos de vanguarda dos anos de 1960/1970, embora com uma presença impressionante em palco, pelo seu peso histórico, revelou-se algo alquebrado para os seus 67 anos de idade. Contemporâneo de John Coltrane e seu parceiro e continuador, Pharoah foi em Guimarães sobretudo a memória ainda viva (já com algum desfoque, que a passagem dos anos não deixa esconder) de algumas páginas gloriosas e gravações que deixaram um traço indelével no jazz do seu tempo.

Optando por um certo mimetismo em relação ao seu modelo, o saxofonista não terá sido feliz na formação instrumental que escolheu ou estava disponível: se, por um lado, Nat Reeves (contrabaixo) esteve sempre à altura dos acontecimentos, já William Henderson (piano) foi muitas vezes vazio e rebarbativo na forma de acompanhar e Joe Farnsworth (bateria), excelente e cumpridor especialista das áreas mainstream do jazz moderno, esteve claramente deslocado e aquém da intensidade expressiva e percussiva que um tal repertório exigia.

No âmbito deste, ficaram-nos como melhores momentos do concerto uma versão (seguindo de perto o original) de Giant Steps e, ainda, a intensidade calorosa de Pharoah Sanders (bem ao jeito das grandes baladas do período Prestige de John Coltrane) em Say it Over and Over Again, a que veio juntar-se, já perto do fim, Creator Has a Master Plan do próprio Pharoah.

Por último, com a lotação esgotada do auditório do Centro Cultural Vale Flor, actuaria o saxofonista nortueguês Jan Garbarek, certamente o músico que mais expectativas gerara para esta jornada inaugural do festival.

Compreende-se, assim, que eu procure não chocar outras opiniões, refreando as minhas impressões muito negativas sobre o Garbarek comercialão dos dias de hoje, a milhas de distância dos tempos de maior talento, glória (e quiçá menor proveito) das suas participações nas big bands nórdicas e no sexteto de George Russell, nas colaborações com o quarteto de Bobo Stenson ou no quarteto europeu de Keith Jarrett, para já não falar nas suas próprias e exemplares gravações ao lado de grandes nomes do jazz norte-americano e europeu.

Trazendo consigo um engenheiro de som que mais funciona como um quinto elemento agregado ao quarteto e encomendando um cenário-tipo-Windows-Vista, Jan Garbarek parece hoje mais interessado -  pela exagerada reverberação que deixa imprimir aos seus saxofones, pelo baterista «exótico» que escolhe (Manu Katché) e pela velha cumplicidade matreira do piano-para-todo-o-serviço de Rainer Brüninghaus  - na exibição altamente sofisticada e super-produzida de um espectáculo de «son et lumière».

Face à música que Garbarek escolheu para nos propor, não pude deixar de a ouvir como se fosse uma banda sonora de luxo para um desses espantosos espectáculos do Cirque du Soleil... mas sem equilibristas, saltadores, contorcionistas ou voos de trapésio e... com rede, ou seja, a forma menos corajosa de fazer jazz.


Guimarães-Jazz 2007 (1ª. Parte)

08.11.07 - Pharoah Sanders Quartet

09.11.07 - Ravi Coltrane Quartet

10.11.07 - Jan Garbarek Group

Centro Cultural Vila Flor

Guimarães


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:10
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